| A Saga da família Corleone 
O começo
Final dos anos 60, Francis Ford Coppola estava no
início de sua carreira quando conseguiu assumir a direção da audaciosa produção
Poderoso Chefão (The Godfather, 1972, EUA), da Paramount Pictures. O filme seria uma
adaptação do romance do escritor Mario Puzo, que estava em franca ascensão quando o
filme começou a ser produzido. Enquanto o livro se passava nas décadas de 40 e 50, o
filme seria ambientado nos anos 70 para baratear custos. A escolha de Coppola deu-se pela
idéia de que pela sua juventude, ele seria rápido, barato e supostamente manipulável.
Com o orçamento
inicial de US$2,5 milhões, Coppola começa a trabalhar avidamente no romance, lendo e
relendo o livro diversas vezes. Cada vez que o fazia, adicionava dezenas de notas de
rodapé para orientar seu filme. Quais as cenas que deveria evidenciar, quais os momentos
que seriam "armadilhas" e o que fazer para evitá-las, qual o primeiro
sentimento que teve quando leu aquela passagem do livro e como transporta-lo para as
telonas... tudo isso estava compreendido nas anotações do cineasta. A partir daí,
começou a reescrever a adaptação que havia sido feita por Mario Puzo. Entretanto,
estava preocupado. A cada dia a popularidade do livro crescia, enquanto ele continuava um
mero desconhecido. Começou a discutir com os produtores, insistindo que o filme deveria
se passar em sua época original e acabou convencendo-os. Mas será que conseguiria
fazê-lo? Essa era exatamente a mesma dúvida dos produtores e executivos da Paramount.
Com o roteiro pronto, Coppola começou a sugerir nomes
para os papéis principais. Assim começaram também seus problemas com a produtora.
"Se você disser o nome de Marlon Brando mais uma vez, está despedido", disse o
presidente da Paramount na época para o diretor. Se Brando não era aceito (por sua
notória excentricidade), o desconhecido Al Pacino, que até então só havia feito
teatro, era considerado uma piada de mau-gosto pelos executivos.

James Caan (Sonny), Marlon Brando (Vito), Coppola, Al Pacino (Michael) e John Cazalle
(Fredo)
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O problema é que Coppola não conseguia imaginar outro
ator no papel de Michael Corleone. Tinha que ser Al Pacino. "Seu rosto era
perfeito", afirma o diretor sobre a escolha. Insatisfeitos, os produtores pediram uma
enorme quantidade de testes. Robert de Niro, James Caan (o preferido da Paramount, que
ficou com o papel de Sonny Corleone, irmão de Michael), Martin Sheen, Robert Redford e
mais centenas de candidatos foram testados para o papel.
Só que no meio de cada nova leva de testes que enviava
para a Paramount, Coppola sempre colocava um novo teste de Pacino. No final o diretor
acabou vencendo pelo cansaço. Al Pacino seria Michael Corleone. No entanto, um
"espião" o acampanharia durante todas as cenas e ao menor descontentamento dos
produtores, o ator seria despedido e substituído. "Eu sei que não sou
desejado", disse Pacino na época.
Fazer com que
aceitassem Marlon Brando para o papel de Don Vito Corleone foi um pouco mais fácil.
Apesar da fama de encrenqueiro e de estar sempre atrasado, Coppola garantiu que Brando
trabalharia sério, sendo um verdadeiro "padrinho" para ele dentro da produçao.
Obviamente que o teste de cena do ator também ajudou, e muito. Foi dele a idéia das
próteses nas bochechas para que ficasse com aquela aparência estranha e a voz arrastada.
As filmagens
No começo das filmagens, Coppola era ridicularizado por
toda a equipe de produção. Ninguém, além dos atores, acreditava nele ou em suas
idéias. O orçamento inicial foi rapidamente estourado, passando para US$6,5 milhões.
Sem dinheiro, muitas das cenas foram feitas por equipes com parcos recursos técnicos e de
pessoal. Coppola teve que contar com a ajuda de muitos amigos, como George Lucas, para que
tais cenas pudessem ser feitas.
Com tantos problemas, o diretor esteve prestes a ser
demitido diversas vezes durante a primeira semana de filmagens. Quando viu que a
situação havia se tornado insustentável atuou como um verdadeiro Don. Demitiu diversos
profissionais da equipe, seus "traidores" junto aos executivos da Paramount, o
que causou um rebuliço na produção e postergou sua saída por mais alguns dias. Nesse
período aproveitou para refazer algumas cenas e acabou mostrando que seria capaz de
dirigir o filme.
O Poderoso Chefão
The Godfather (no
original) se tornou um épico, recheado de momentos inesquecíveis do cinema. Cenas como o
tiroteio na barraca de frutas, o assassinato no restaurante, Don Vito no canteiro de
tomates, toda a seqüência de Michael na Sicília e muitas outras, então vivas na
memória dos cinéfilos mesmo quase 20 anos depois de seu lançamento.
O filme conta a primeira parte da saga da famiglia
Corleone. Comandada pelo respeitado Don Vito Corleone (Marlon Brando), a família mafiosa
controla os negócios ilegais na Nova York dos anos 40 e 50, em constantes conflitos com
outras famílias e dons.

James Caan (Sonny), Marlon Brando (Vito), Al Pacino (Michael) e John Cazalle (Fredo)
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Don Vito tem nos filhos Sonny (James Caan), Fredo (John
Cazale), Connie (Talia Shire) e Michael (Al Pacino) e na honra da família suas maiores
motivações. A maneira como gerencia os negócios ("bussinesse", no melhor
inglês com sotaque italiano) com o auxílio dos capos (generais da máfia) e de seu
consigliere (Rubert Duvall) é mostrada em detalhes que beiram a perfeição.
Entretanto, a gerência dos negócios pelos mafiosos
não se resume apenas a contas e pagamentos. Assassinatos são parte constante desse
dia-a-dia. O problema é que Coppola não gosta de violência... fato que levou o estúdio
a considerar a contratação de um diretor específico para as cenas de ação que
envolvessem mortes, tiroteios e explosões. Receoso que isso pudesse acontecer, Coppola
descobriu então uma maneira muito interessante de lidar com os aspectos mais pesados da
máfia.
O diretor passou a agregar elementos sutis que distraem
a audiência (e talvez ele mesmo) da barbárie das cenas mais fortes. Coisas como laranjas
rolando no asfalto durante um tiroteio, um pé saindo pelo para-brisas durante um
estrangulamento, formas bizarras de assassinatos, a desobediência aos princípios dos
assassinato e muitas outras, foram incorporadas para dar mais textura à violência.
O resultado de
tanto esforço foi um filme grandioso, ricamente ilustrado em todos os sentidos. Um
sucesso de crítica e de público que acabou rendendo três Oscar - melhor filme, roteiro
e ator (Marlon Brando, que se recusou a receber o prêmio por detestar Hollywood) e
tornou-se um clássico imortal do cinema.
A aceitação de O Poderoso Chefão acabou fazendo com
que Coppola assumisse a direção e o controle total do segundo filme da série - O
Poderoso Chefão Parte II, desta vez com liberdade criativa e US$11 milhões de
orçamento.
O Poderoso Chefão - Parte II
Na segunda
parte da saga da famiglia Corleone, terminada em 1974, Francis Ford Coppola e Mario Puzo
foram ainda além e contaram duas histórias paralelamente.
A primeira é a continuação de O Poderoso Chefão.
Agora, com um Michael mais maduro e ousado no controle da família, os Corleones tentam
expandir seu império, atuando na costa leste dos Estados Unidos. O seu foco deixa de ser
o contrabando e passa a ser o jogo, na Meca do entretenimento de azar, Las Vegas. Em O
Poderoso Chefão - Parte II, Michael enfrenta a perseguição de outras famílias e do
governo federal que tenta a todo custo trazê-lo à justiça.
Paralelamente, o
filme apresenta toda a infância e a mocidade de Vito Andolini, que mais tarde seria
conhecido como Don Vito Corleone. Em seqüências belíssimas gravadas na Sicília e
durante a chegada dos imigrantes italianos a Nova York, o filme mostra como Vito
(perfeitamente interpretado por Robert De Niro) se desenvolveu e quais suas motivações,
bem como as de diversos outros personagens secundários, como o gangster Clemenza, seu
sócio no início da formação do império Corleone. Esse vaivém no tempo e as
impecáveis reconstituições de época, ajudam também a montar um romântico panorama da
América no início do século XX.
Com o novo filme, Coppola e Puzo conseguiram o que
parecia impossível... realizaram uma produção ainda melhor que a original. Como
reconhecimento, Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante
(Robert de Niro).
A Morte de Michael Corleone
Dezesseis anos
depois da segunda parte da saga dos Corleone, Coppola e Puzo novamente se reúnem para
trazer à luz dos projetores o que seria a última parte do épico. O Poderoso Chefão
Parte III.
Originalmente concebido para se chamar "A Morte de
Michael Corleone" (calma, não estou fazendo spoiler, assista ao filme que tudo
ficará claro), o título foi recusado pelos produtores, que preferiram dar seqüência ao
"Parte II". A decisão desagradou o diretor, que disse nunca ter imaginado os
três filmes como uma trilogia, e sim, como dois filmes e um epílogo.

Michael e Vincent
Corleone (Andy Garcia)
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Na terceira parte, muito mais emotiva e contemplativa,
Michael Corleone está arrependido. Depois de tantos anos no controle da família, o
caçula dos Corleone passa a tentar legalizar a todo custo seus negócios e sua vida.
Michael está em busca de redenção. Perdão pelas suas hipocrisias e desconfianças no
passado, mas principalmente, perdão pelo sangue em suas mãos. O mafioso tentará
alcançar seus objetivos com a ajuda da igreja católica e do Papa em pessoa!
A tragédia
intimista que é a segunda continuação de O Poderoso Chefão não é tão exuberante
quanto as outras, mas tem alguns momentos simplesmente inesquecíveis. O final (ao som da
ópera Cavalleria Rusticana) é de tirar o fôlego e faz você não ter vontade de
conversar por algum tempo, apenas para absorvê-lo. Ponto para Al Pacino, o ator que
ninguém queria, e que agora leva o filme todo nas costas.
Participam do filme Andy Garcia, como o filho bastardo
de Sonny - Vincent, e Sofia Coppola, filha do diretor, como a filha de Michael - Mary.
Opinião da Arca !
O Poderoso
Chefão aparece
no topo da lista dos melhores filmes da história do cinema na opinião dos milhares de
usuários do Imdb (Internet Movie Database), o maior portal de filmes do mundo. O Poderoso
Chefão II é
considerado por muitos críticos a melhor continuação de todos os tempos. Como explicar
tamanho reconhecimento? A luxuosa Coleção O Poderoso Chefão é a oportunidade que
faltava para responder facilmente a essa questão.
Nunca um filme de
gângster, gênero muito popular no cinema americano nas décadas de 30 e 40 (veja Balas ou
Votos, Inimigo Público nº 1 e, principalmente, Scarface), colocou, em primeiro
plano, a família dos criminosos. Na máfia ítalo-americana, a família tem papel central
a começar pelo próprio modo em que os subordinados se dirigem ao chefão Godfather
(padrinho, em português). Coppola trabalhou muito bem essa esfera familiar. Em nenhum
momento, a família deixa de ser o personagem principal nos filmes da trilogia. Por
exemplo, é para vingar a família que Michael assume os negócios ilícitos do pai e o
jovem Corleone volta à Sicília para se vingar do assassino do irmão.
A primeira parte é, sem
dúvida, um filme crepuscular, que mostra o fim da máfia romântica representada por Dom
Vito Corleone. Ele é o último dos mafiosos que não aceitam trabalhar com drogas. Para o
velho chefão, o tráfico não condiz com os
códigos de honra da máfia. Coppola explora muito bem essa temática ao enfatizar as
diferenças entre Dom Corleone e seus herdeiros. O ponto alto a longa seqüência do
casamento, que abre o filme. O diretor dialoga inteligentemente com a célebre seqüência
do baile de O Leopardo, de Luchino Visconti. Nos
dois filmes, a velha ordem está com os dias contados. No mais, Marlon Brando está
magnífico. Para fazer a voz rouca de Dom Corleone, Brando filmava com um bola de papel
higiênico na boca.
A segunda parte vai ainda mais fundo
na questão família ao reconstituir a saga de Dom Vito Corleone, interpretado
brilhantemente por Robert De Niro. Coppola aproveita para fazer um belo panorama da
imigração italiana nos Estados Unidos. É impossível não comparar o filme a Era uma Vez na América, épico do mestre Sergio
Leone ambientada na mesma época. |

O Poderoso Chefão 1

O Poderoso Chefão 2

O Poderoso Chefão 3
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Al Pacino durante a cena do assassinato de Sollozzo
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A última parte da trilogia causou muita polêmica. O principal ponto de
discussão foi a interpretação fraquinha de Sofia Coppola, a filha do diretor. Mas, é
um exagero dizer que ela prejudica tanto o filme. Hoje, percebe-se que o filme não foi
bem recebido por ser muito amargo. Coppola não tinha outra escolha. Michael precisa
sentir remorso pelos crimes do passado. Neste sentido, O Poderoso Chefão III é um desfecho coerente
para a melhor trilogia da história do cinema.
Curiosidades
- Brando colocou pedaços de queijo na boca em seu teste
para caracterizar-se como Don Corleone.
- A responsável pela edição de todos os testes foi
Marcia Lucas, esposa de George na época.
- Centenas de milhares de dólares foram gastos em testes
para o papel principal de O Poderoso Chefão. Todo esse valor poderia ter sido poupado se
os produtores tivessem acatado a sugestão inicial de Coppola, Al Pacino, que acabou
ganhando o papel.
- Francis Ford Coppola carregava por toda a parte, em uma
bolsa reforçada, um fichário contendo todas as páginas comentadas por ele do livro de
Mario Puzo: "Poderia ter feito o filme só com ele", afirma.
- Outra das manias de Coppola é utilizar membros de sua
família em todos os filmes da saga. O maestro responsável pela regência da trilha
sonora inesquecível (criada por Nino Rota) é Carmine Coppola, pai de Francis e de Talia
Shire (irmã de Coppola que interpreta Connie Corleone). A mãe do diretor aparece como
figurante em diversas cenas, bem como os filhos e primos do cineasta. "Um filme sobre
famílias deve ser feito por uma", disse o cineasta.
- Todas as cenas envolvendo música ao vivo possuem
músicos de verdade tocando. Nunca é utilizado playback. Coppola acredita que com isso
melhora o ânimo dos atores.
- A cabeça de cavalo na cena na mansão do produtor de
Hollywood é real. Foi conseguida em uma fábrica de rações para animais.
- Os tomates da antológica cena com Marlon Brando tiveram
que ser importados - mais um gasto supérfluo de acordo com os produtores.
- Há milhares de detalhes ínfimos em toda a produção.
Podemos encontrar desde os pára-choques dos carros da época (feitos de madeira, não de
cromo), os adesivos de cota permitida de combustível no vidro dos automóveis até a cor
das embalagens de comida chinesa do período retratadas de maneira muito fiel.
- A utilização do título O Poderoso Chefão - PARTE II,
foi bastante ousada para a época, pois nenhuma continuação recebia um número após o
nome, fato tão comum hoje em dia.
- A segunda parte da saga teve uma pré-estréia desatrosa.
Ninguém entendeu o vaivém através do tempo e todos os presentes reclamaram que era
muito confuso. Com apenas mais duas semanas até que o filme entrasse em cartaz, Coppola e
o editor Walter Murch reduziram o número de cenas entrecortadas de 20 para apenas 12,
tornando-o um sucesso imediato.
- No final do segundo filme há uma cena de flashback, em
que toda a família está reunida para celebrar o aniversário de Don Vito. Durante as
gravações desta cena, Marlon Brando não apareceu, como era o combinado. A solução foi
fazer com que todos estivessem esperando ele chegar em casa numa festa surpresa. A
seqüência é impressionante, pois mesmo sem Brando, Coppola consegue transmitir sua
presença, apenas com o suspense de sua chegada.
- É dito que "Com Coppola, o roteiro é como um
jornal. Todo dia há um novo".
- Para o papel de Vincent (Andy Garcia), os produtores
testaram Silvester Stallone e John Travolta.
- Por ironia do destino, o mesmo Coppola que ia ser
substituído no primeiro filme por um "diretor de ação", em Poderoso Chefão
III teve que minimizar a violência a pedido dos produtores por causa da censura.
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