Gino Amleto Meneghetti

— Nunca fui infeliz. Toda vez que intentei um assalto, sempre tive noventa e nove probabilidades de vitória e uma de fracasso. Esta polícia... esta polícia... Gino Amleto Meneghetti
 

 

 

Com o passar do tempo seus feitos foram sendo esquecidos e apesar de atualmente Meneghetti ser praticamente desconhecido de grande parte da população, ele continua a ocupar lugar de destaque entre os maiores bandidos da história brasileira.

Este site tem a obrigação de recontar sua história e relembrar de um tempo em que até os ladrões eram melhores !!

Da crônica policial, é difícil extrair o que é verdadeiro e o que é falso, mitológico, na vida de Meneghetti. De uma feita sequestra o chefe da polícia, dr. Roberto Moreira, para entregá-lo na redação de um jornal. Propôs um duelo a bala com o delegado de Roubos da época, e cujo nome se perdeu na história

O primeiro cenário de suas pouco elogiáveis façanhas foi a bela cidade de Pisa, que os turistas conhecem por sua torre inclinada. O primeiro registro criminal ocorre aos 16 anos de Meneghetti.

Meneghetti nascera no último quarto do século XIX (1878), quando a Itália acabara de sair de sua grande crise.

Fugindo da polícia italiana após um fenomenal roubo em Veneza, Meneghetti um outrora honesto mecânico do 2° batalhão de infantaria Italiano vai parar na França no paraíso do crime, passadiço de criminosos, Marselha , onde permanece por quase dez anos de roubos bem lucrativos. Traído por seu amigo de roubos Stéphane Coutelle (que ganharia com a delação a liberdade) foi capturado pelas autoridades francesas e deportado para o Brasil.

Na época era tratamento comum aos criminosos ser enviado para Brasil, Austrália entre outros paises.

Seguiu então viagem no vapor "Tomaso di Savoia"

 

 

  e desembarca no Porto de Santos em 25 de junho de 1913. Aos 35 anos de idade e  fichado na Interpol,  sua chegada foi precedida de um dossiê da polícia italiana enviado às autoridades brasileiras que o definia como ("um elemento perigoso, condenado numerosas vezes por crime contra a propriedade e por violência contra agentes da força pública").


Meneghetti foi recebido por uma tia em São Paulo e através dela conhece Concetta Tovani, com quem após roubá-la dos pais, honestos donos de restaurante na capital se casaria e teria dois filhos. Com o casamento tentou levar uma vida correta e passou a trabalhar como pedreiro, mas perdeu o emprego pouco depois ao brigar com o mestre-de-obras  e agredi-lo.
Assaltou a Casa Sarli, tradicional loja de armas importadas. Adentrando o porão do estabelecimento Meneghetti conseguiu arrombar o assoalho e entrar no depósito. Carregou consigo os armamentos de preço e qualidade mais elevados.

 

Meneghetti é detido em 1914 na saida do Mercado, desafiava a policia o bandido, circulando normalmente entre as pessoas e comendo nos melhores e mais caros restaurantes. Condenado a 8 anos, é mandado para a Cadeia da Luz. Considerado preso de conduta incorrigível, torna-se vítima frequente dos castigos regulamentares  e é numa dessas ocasiões, confinado na solitária (então um poço redondo e isolado), que empreende a primeira de uma série de fugas espetaculares.

 Escalando as paredes do poço, força a cobertura de ferro até ela ceder, escapando, nu e faminto, pelas ruas de São Paulo encontrando abrigo numa loja de chápeus e guarda-chuvas permanece ali durante a noite para assim logo cedo ao roubar o dono nada leva  além de suas roupas .
 

 Se estabelece como comerciante e na verdade contrabandista em Curitiba, passa por Porto Alegre e Florianópolis e cruza a fronteira, empreendendo roubos em Montevidéu e Buenos Aires. Perseguido pela polícia,  já com o nome de Mario Mazzi volta ao Rio Grande do Sul, onde, em 24 de julho de 1924, se apresenta às autoridades para tirar uma carteira de identidade com nome falso. Além de sair de documento novo, ainda arranja com a polícia um atestado de boa conduta.

 É interessante salientar que em 1924, portanto dois anos antes de voltar a ver o sol nascer quadrado, conforme a gíria popular, Meneghetti viveu intensamente a criminalidade: os arrombamentos a cofres, roubos de jóias, assaltos a casas comerciais e residenciais, notadamente as dos bairros mais aristocráticos, se sucediam, incontroláveis. A polícia, atônita, não sabia por onde começar as investigações. A imprensa, sempre atenta, não perdoava a ineficiência do aparato policial. Em suas manchetes chamava São Paulo de "o paraíso dos ladrões" e "cidade despoliciada". É certo que Meneghetti não era o único bandido em atividade, mas, seguramente, podia ser considerado, de longe, o mais competente na arte de roubar. No entanto, segundo relatório do delegado Leite de Barros, datado de 24 de maio de 1926, "após uma série de investigações ficou comprovado o autor de quase todos os assaltos praticados em prédios de habitação a partir de fins de 1924. Tratava-se de Gino Amleto Meneghetti, também conhecido por Angelo Bianchi, Italo Bianchi, Antonio Garcia e Mario Mazzi".

 


Porém sempre roubando é apanhado no Rio de Janeiro, mas fingindo-se de louco, é internado no Hospital dos Alienados, na Praia Vermelha. Consegue fugir, voltando a São Paulo sob o nome de Menotti Menichetti. Vai morar no Bixiga , tradicional bairro italiano de São Paulo,  Assim que chegou do Rio de Janeiro escondido por baixo do trem junto a roda ! ele se instalou com Concetta e os filhos na Rua da Abolição. O fato de ter como vizinhos apenas famílias de "carcamanos", ele imaginava, seria de grande valia em casos de cerco policial. "A casa que comprei ficava numa região que era um reduto da grossa malandragem", escreveu o esperto ladrão em suas memórias. "Tinha outros pontos, pequenos apartamentos de luxo, onde podia refugiar-me na hora de um perigo mais sério, e descansar. Dinheiro eu tinha, e boa quantidade de jóias." Numa das reminiscências de um dos moradores do antigo Bixiga, Meneghetti não era considerado um criminoso, "talvez porque a convivência pacífica com a vizinhança o eximira do estigma de indivíduo perigoso, pois não incomodava os desfavorecidos. Provavelmente, tiveram início nesse ponto as lendas criadas em torno de seu nome, que lhe atribuíam a qualidade de ser amigo dos pobres".

Ele era assim, a policia o prendia e algemava, em dado momento ele surpreendia o policial já livre das algemas e lhe dava uma borrachada nas costas deixando-o algemado com suas próprias algemas !

Na rua tinha mais soldados que paralelepípedos. Mas se eu não estivesse embriagado a polícia nunca me prenderia . Gino Amleto Meneghetti

Roubava alucinadamente, não dormia senão roubasse ! assaltando casas comerciais e residenciais, arrombando cofres e roubando jóias - sempre das luxuosas mansões das avenidas Brigadeiro Luis Antônio, Angélica e Paulista. Se torna um fenômeno na imprensa, que lhe apelida de "gato dos telhados", devido a sua facilidade de se locomover pelo teto das casas para fugir dos cercos das autoridades.


 Jamais roubei um pobre. Só me interessava tirar dos ricos, e tirar jóias, que são bens supérfluos que só servem para alimentar a sua vaidade.
Gino Amleto Meneghetti

 

 

Empreendeu-se então uma frenética busca ao meliante. Sem pistas, a polícia não via solução para os crimes até que, por obra do acaso, chegou a um suspeito. Em meados de junho de 1926 uma mulher procurou a delegacia para prestar queixa contra um vizinho que havia espancado brutalmente o filho; entretanto, o caso só ganha atenção quando ela menciona que seu filho entrara na casa do agressor e vira lá baús repletos de jóias. Estava identificado o autor dos numerosos assaltos em São Paulo.


Pouco depois arma-se para detê-lo um dos maiores esquemas policias de que a cidade tivera notícia até então. O cerco foi armado - mobilizando diversos elementos do Corpo de Bombeiros, da Força Pública e da Guarda Civil - e uma armadilha preparada na casa onde estavam os filhos de Meneghetti. Segundo a crônica policial da época, o bandido, acuado, efetua vários disparos e mata o comissário Valdemar Dória. Foge para o telhado, e de lá grita para os policiais e para a multidão reunida na rua: "Io sono Meneghetti! Il Cesare! Il Nerone di San Paolo!" ("Eu sou Meneghetti! O César! O Nero de São Paulo!")


Depois de passar a tarde e a noite pulando de telhado em telhado na vizinhança da rua dos Gusmões, é preso na casa de número 25 da rua dos Andradas. Obrigado a revelar seu endereço secreto, vê os vários baús cheios de jóias e seus diversos equipamentos usados nas incursões noturnas serem apreendidos pela polícia. Meneghetti é condenado a 43 anos, dois meses e 10 dias de cadeia, pena mais tarde comutada para 25 anos.


Como punição pela morte do comissário Valdemar Dória, Meneghetti  (que sempre negou a autoria do crime contrapondo que a bala que vitimou o bom comissário era de calibre 38 eseu  revolver de 32)passa 18 anos dentro de uma cela blindada (um "cubículo sujo, fétido e sem ventilação", segundo reportagens da época) na presídio do Carandiru. É solto em 17 de janeiro de 1945, mas passa apenas 60 dias em liberdade. Daí em diante sua vida se torna uma sucessão de prisões e fugas: ainda em 1945 é preso por tentativa de homicídio, passando sete anos na cadeia. Sai em 1952. Dois anos depois, em março de 1954, tenta assaltar uma casa na Vila Mariana mas ao sair seu carro um nada mais nada menos Chevrolet Belle Branco e Azul morre por falta de gasolina. Preso, passa mais três anos atrás das grades, sendo libertado em 15 de outubro de 1959.

Na oportunidade em 3 de março de 1960 o governo tentando uma ação publicitária lhe dá do governo uma banca de jornais na esquina da rua Amador Bueno com a avenida Ipiranga... pela qual reclamou do abandono enquanto esteve na cadeia ao então prefeito Faria Lima .

Certa vez, um ex-presidente de Tribunal do Juri que inaugurava nova residência, convidou-o para testar as grades das janelas. Meneghetti aceitou o teste e deu sua opinião: "É, as grades são boas e fortes, mas dão um bom ponto de apoio para se escalar a parede do 2o andar.

 


 

Nos quatro anos seguintes foi preso mais duas ou três vezes, como na noite de 22 de setembro de 1964, quando é apanhado carregando jóias avaliadas em torno de 150 mil cruzeiros. É libertado a 23 de dezembro de 1966, aos 78 anos de idade, e vai morar com os filhos no bairro de Vila Guarani. É surpreendido pela polícia novamente em fevereiro de 1968 tentando roubar uma casa. Foge pelo telhado, mas a sorte então já não era mais a mesma; num dos saltos quebra as telhas, cai no banheiro de uma casa e é apanhado. Permanece um ano preso, mas não resiste e tenta um novo golpe. É detido novamente. Já resignado de sua condição, declara ao delegado: "Não é possível ser um bom ladrão sem ter os ouvidos em bom funcionamento. Acho que terei de me aposentar."


No começo da década de 70 Meneghetti volta a ter destaque na imprensa. Desta vez transformado em um charmoso anti-herói, ele passa a ser tratado como o símbolo romantizado de um ladrão original, solitário e diferente dos demais.

Chegou a ser cogitado a gravação de um comercial onde ele não conseguiria abrir uma fechadura dando a mesma credibilidade de resistir ao Meneghetti


Em outubro de 1975, o boato de que Meneghetti teria falecido movimenta os jornais. Na verdade, sofrendo de complicações cardíacas, esteve internado no Hospital Samaritano. Morre em maio de 1976, aos 98 anos de idade.